Criatividade é pra quem

Criatividade é pra quem

Esta, acredito, é a pergunta central da qual depende toda a vida criativa: ‘Você tem coragem de trazer à tona os tesouros que estão escondidos dentro de você?’ Trecho do livro Grande Magia, de Elizabeth Gilbert

A criatividade tem sido um tema muito explorado ultimamente, principalmente no mundo empreendedor. Diz-se por aí que temos de ser criativos, que é O diferencial num mundo competitivo, temos cursos de criatividade pipocando em todos os cantos… Mas, afinal, criatividade é algo que se aprende ou é algo com o qual todos nós já nascemos? Para a autora Liz Gilbert (de Comer, Rezar, Amar, lembra?), todos nós somos seres extremamente criativos, com um potencial incrível a ser explorado, mas acabamos perdendo o contato com essa necessidade humana por uma série de fatores e desculpas que resultam principalmente do medo, e que ela pretende desconstruir no livro Grande Magia, lançado em 2016.

Existem muitos mitos em torno da criatividade e do processo criativo em si. A ideia de que a inspiração necessária para criar é apenas algo externo à nós, que existem inúmeras demandas para que ela se concretize (algo como condições ideais), é a primeira inverdade que precisamos quebrar. Não existem condições perfeitas para isso: nem tempo, nem dinheiro, nem todos os recursos possíveis bastam porque, mesmo os tendo, muitas pessoas ainda travam logo de cara. Criar as condições é parte do próprio processo criativo: Precisamos nos colocar em movimento, tentar de diferentes maneiras criar espaço para que nossa criatividade ganhe lugar no nosso dia-a-dia, por menor que seja a situação, deixá-la tomar forma.

O documentário Everything is a Remix, que também traz questões envolvidas na criatividade, nos mostra os pilares do processo criativo: copiar, combinar, transformar. Toda arte criada é uma combinação de muitas outras, assimiladas pelo artista ao longo do tempo. Copiamos para ter as bases de conhecimento e compreensão. Bob Dylan, por exemplo, começou cantando covers de outros artista; já um escritor redigitou O Grande Gatsby apenas para “ter a sensação de escrever um grande romance.” Inclusive um outro livro muito legal, que bebeu das fontes desse doc, foi o Roube como um artista, lançado em 2012 por Austin Kleon, que recomenda inclusive que tenhamos um Arquivo de Furtos que funciona mantendo uma base de dados de ideias interessantes roubadas de outras criações.

Apesar de muitas vezes acreditarmos e exigirmos de nós mesmos que criemos O grande trabalho das nossas vidas de uma só vez, o processo criativo tem esse nome porque é justamente isso ( ‘ohhh’ você diz, caro leitor): um p r o c e s s o. Passa por escolhermos à que narrativa interna vamos dar ouvidos — a do medo ou a da coragem — até que forcinha vamos dar para que a inspiração flua através de nós.

Muitos de nós prefere até mesmo nem começar, por saber que nosso trabalho não será como em nossas cabeças. Eu fui uma dessas pessoas por um longo tempo. Mas, até começar (como faço aqui agora), a verdade é que não temos como saber nadica de nada. Pode ser que seja muito melhor, mas vai começar amador, e isso são coisas que simplesmente devemos aprender a lidar para usufruir da magia da criatividade na nossa vida. São hábitos a serem reforçados constantemente para que nossos projetos não acabem na gaveta, como os da grande maioria. Todos nós começamos do mesmo ponto ao ter uma ideia: a excitação inicial. Terminá-la nos faz avançar num processo que depende apenas de nós mesmos. Confiança. Esse é o acordo a ser feito, segundo Liz: Comprometer-se com dar vazão à sua força criativa, não importa como ou porquê, apenas pelo simples fato de querer ter a inspiração como sua companheira de jornada, porque ela deixa vida mais leve e interessante.

“A criatividade é o oposto do conforto”, disse minha amiga que me ajudou na construção desse texto (Aprendo tanto com você, Thayla! ❤). E eu concordo totalmente com ela. Exercitar-se fisicamente, sair do conforto no sentido literal, por exemplo, já abre caminhos de forma inigualável para que o foco e as ideias circulem em nossa mente (muitas pesquisas provam isso!). Não precisamos criar de cara algo enorme, como escrever uma novela, pode ser o caminho diferente que fazemos até o trabalho, pode ser um lugar com comida nova, pode ser sentar pra escrever sobre o seu dia, pode ser assistir um filme e pensar que tipos de coisas foram pensadas para que ele saísse daquela maneira…

A criatividade não é um martírio, coisa pra poucos felizardos abastados (assim fosse, apenas ricos criariam) ou algo que você deve ter um diploma para exercer. Ela se dá pra quem está disposto a abrir espaço para que ela chegue, sem cobranças ou expectativas, com trabalho consistente. O medo da rejeição é humano e tem seu papel: proteger-nos. Uma vez que você entende que o que você faz não te faz correr riscos para além do óbvio — alguém não gostar do seu trabalho — , o medo deixa de ser uma prioridade, o perfeccionismo (irreal) deixa de ser uma possibilidade. Liz entendeu bem isso, escreveu para curar suas próprias confusões emocionais e acabou ressoando com tantas outras pessoas, lançando um dos maiores best sellers dos tempos atuais.

E você, pode nos contar o que te faz ser/sentir criativo?